No livro “O
Visconde Partido ao Meio”, lançado em 1952 e de autoria de Ítalo Calvino, é apresentada uma reflexão profunda e moderna
sobre a personalidade humana. A obra faz parte de uma trilogia lançada por
Calvino, intitulada “Os nossos antepassados”, que mostra o ser humano de forma
fragmentada e incompleta.
A trajetória
do Visconde Medardo di Terralba é iniciada em uma guerra contra os turcos, na
qual ele acaba atingido por uma bala de canhão e tem seu corpo, literalmente,
dividido. Os médicos conseguem salvar o que restou do Visconde, mas agora ele
tornou-se extremamente mal, cometendo atos terríveis contra todos que o cruzam.
Porém, logo o Visconde passa a agir com extrema bondade e altruísmo, deixando a
todos confusos. O que aconteceu é que a outra metade também sobreviveu, e essa
era a “boa”, porém também acaba prejudicando a muitos com sua extrema bondade.
Para concluir, as duas partes apaixonam-se
por Pamela, o que resulta em um final interessante.
A ambiguidade
humana presente na narrativa pode ser encontrada em diversas outras obras, como
o elogiado “Batman: O Cavaleiro das Trevas”, dirigido por Christopher Nolan. O
personagem Harvey Dent passa pela mesma transformação do Visconde, só que de
forma mais crua e real. Os dois lados são encontrados dentro de um mesmo ser,
sem a grande metáfora mostrada na obra de Ítalo, porém a forma “antes e depois”
usada no longa-metragem também resume essa ideia das “duas faces” humanas.
Existem outros aspectos na obra que mostram requintes contraditórios desses
dois antônimos que são a bondade e a maldade; a cena da morte do pai do Medardo
é um grande exemplo, além de ser umas das descrições mais belas e atrativas do
livro.
Em poucas
páginas o livro consegue transmitir grandes ideias e diversos assuntos. Fiquei
surpreso com a obra em vários aspectos, principalmente por trabalhar o
imaginário e ficcional de forma surpreendente para a época, além de ser uma
história que acaba de maneira inusitada, deixando o leitor com sede de conclusão
e detalhes. Indico a leitura do livro, principalmente àqueles que gostam de
leituras diretas e sem rodeios.

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