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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Água Morna


Segurança. Esse sempre foi o lema em que minha vida embalava-se; quando criança minha mãe não era capaz de deixar-me, nem ao menos, descer de um escorregador sem a companhia dela. Lembro de uma vez em que fugi, com seis anos, para ir ao parquinho sozinha. Andar no balanço embalando-o com minha própria força, sentindo o vento em meu rosto... Foi a vez em que me senti mais livre para fazer o que realmente queria. Foi uma sensação que nunca mais consegui encontrar em minha vida.
Até agora.

Lembranças podem ser como um filme. Reviver o passado há qualquer momento é uma emoção sem definição concreta, mas também abstrata. Estar aqui, nessa sala, sequestrada e sozinha parece ser tão infantil, sem sentido, não real, e isso que está aguçando minha mente. Sinto cheiro de sangue. Pergunto-me quantas pessoas já perderam sua existência nessa sala; digo existência, pois não acredito que uma lâmina ou nenhuma outra arma física seja capaz de tirar a vida de alguém. Vida é uma definição muito mais complexa do que o ser humano pensa. Está no ar, na poeira... O cheiro desse quarto faz com que eu recorde minha infância. Da vez em que abri a porta do banheiro e encontrei os azulejos manchados, era tudo geralmente tão branco, mas aquela vez era vermelho. Muito vermelho. Um lago em vinho formava-se no chão. Gritei, o mais alto que podia, gritei muitas vezes. Creio ter salvo minha mãe. Lembro de tantas coisas ruins, mas, geralmente, as boas falam mais alto. E agora eu estou nesse cativeiro, prestes a morrer, pelos olhos mais profundos, os olhos que fazem eu ansiar pelo novo, por descobrir o mistério. Fazia tanto tempo que ele havia saído, e eu nem mesmo havia tentado abrir a porta. Aberta! Não há ninguém por perto. Caminhei até meu carro, a noite escura, as chaves na ignição! Eu estava viva. E o assassino mais calculista, a mente mais atraente para se decifrar, deixou que eu vivesse. Por quê? Sou mulher. Bem sucedida. Solteira. Encaixo-me nos perfis das vítimas. Porque eu não? Estudei o caso detalhadamente. Era a única coisa que fazia bem. Meu trabalho; jornalista investigativa. Entrei no carro e dirigi. Lembranças da faculdade surgiram.

-Anne Proenza. ANNE PROENZA!
Sempre era chamada duas vezes.
-Presente.
Após responder a chamada, voltava ao meu mundo. Imaginando histórias, me perdendo em mundos imaginários. Geralmente as coisas pareciam tão desnecessárias. O curso de jornalismo era, na maior parte do tempo, onde eu mais me encaixava. Ter perdido minha mãe no ano em que entrei para a faculdade fez com que me fechasse mais ainda para o mundo. Ter um pai agressivo que, além de agredir minha mãe, ficava feliz com meu isolamento do mundo não era a coisa mais agradável. Morei com ele até formar-me. Na maior parte do tempo ficava no meu quarto. Minha tia morava em frente ao nosso apartamento. Os jantares e almoços sempre aconteciam na casa dela. A mudança para tão perto havia ocorrido para diminuir a opressão do meu pai sobre minha mãe. Os últimos três anos dela foram os mais calmos, mesmo que lutando contra a leucemia. A passagem pela faculdade foi muito rápida. Meu tio trabalhava no jornal local e conseguiu uma vaga na área criminal da redação. Eu mantinha contato com a polícia e atualizava a parte investigativa. Mas com o tempo fui me envolvendo mais e mais com a parte da investigação. Chegava a trabalhar mais com a polícia do que com a redação. Tudo ia tão normal. Eram crimes entediantes, como o “Ladrão de Pão”, um assaltante de padarias. Mas algo diferente surgiu. Um assassino que deixava um bilhete com seu nome sobre o corpo nu das vítimas. Apenas “Lênin Arpini” escrito com uma letra suave, como se fosse escrita com pena e tinta. Foram seis assassinatos. Analisei cada vítima, cada caso, cada rastro, cada pista. Surgiu uma obsessão. Não conseguia fugir do caos da ideia de como seria ser uma vítima. Como seria estar sobre o controle de outra pessoa. Como seria ir contra tudo e todos. Tudo sempre foi errado e imprudente em minha vida. A vida do “serial killer” apaixonante tornou-se um livro aberto para mim. E era inegável que eu estava alucinada, não sei se essa é a palavra certa, por ele. Passei dias nessa conturbada relação platônica. Tudo em segredo, afinal não havia ninguém para compartilhar meu conto de fadas bizarro. Em um ato de coragem, ou burrice, persegui Lênin. Estava certa de que seria uma vítima. Ao mesmo tempo que tinha medo, sentia-me excitada. Fui agarrada por ele, machucada, levada para o cativeiro, e eu ria tanto. Estava feliz. Era algo que havia escolhido secretamente. O olhar que ele trocou comigo foi de medo. E aqui estou de volta ao presente. Dirigindo. Fracassei; não fui capaz de atender ao desejo de uma mente brilhante. A confusão espalha-se por minha mente e pele. Cansei de tudo, de todos. A vida merece emoção.
A água da banheira está morna. Sinto a navalha abrindo meus pulsos e a água começa a ficar mais quente. Dizem que quando se está prestes a morrer a vida passa toda por seus olhos, e é verdade...
Primeiro a menina dos cabelos negros que passava as manhãs em casa, assistindo programas entediantes para disfarçar as brigas dos pais. Encantado era uma cidade bonita, mas que nunca pode ser desfrutada por ela. Aos quinze anos os fones de ouvido eram seus companheiros, a música era seu refúgio. E ali ela perdia-se do mundo. O medo do pai sempre a oprimia de qualquer atitude mais ousada. Tudo parecia ser tão calculado agora.
Estava tão fraca. Tudo ia ficando mais claro, o branco ia tomando minha visão...
A garota, que um dia havia sido eu, estava tão feliz. Era sua formatura de ensino médio, mas não era esse o motivo de sua alegria. Sua mãe a observava orgulhosa, mesmo que com um olhar cansado e fraco ela estava feliz por ver em sua filha a esperança de ser o que ela não foi. E, agora, penso que tudo que fiz foi uma desculpa para tomar em minha mente o desejo de assistir o filme entediante que foi minha vida. Não houve paixão por assassino; nem por nada. Houve covardia e medo.
O sabor de ferro da água foi o último gole de uma vida. Agora, somente esperança e mistério...

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